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Deepfakes na era da desinformação

É mais complicado do que você imagina


Por Carol Assunção*, Jornalista, pesquisadora em conteúdo audiovisual, Doutora em Linguística do Texto e do Discurso

Quando o cinema foi inventado na transição do século XIX para o XX, despertou interesse nas imagens técnicas e como o então novo maquinário poderia ser capaz de gerar reproduções tão fiéis do mundo à nossa volta, ainda que faltassem cores e sons. Você deve conhecer a famosa chegada do trem à estação La Ciotat, de Auguste e Louis Lumière. Diz a lenda que pessoas se levantaram e saíram correndo de dentro do café onde os irmãos mostravam o cinematógrafo e projetavam tal cena pela primeira vez, em Paris. Martin Scorcese incluiu essa história em As invenções de Hugo Cabret, filme homenagem ao cineasta e ilusionista Georges Méliès, lançado em 2011.

Anos depois, o teórico Christian Metz discutiu esse aspecto como "impressão de realidade", em um dos textos clássicos das teorias do cinema.

"[...] uma reprodução bastante convincente desencadeia no espectador fenômenos de participação - participação ao mesmo tempo afetiva e perceptiva - que contribuem para conferir realidade à cópia. Nesta perspectiva, devemos nos perguntar por que a impressão de realidade é tão mais forte diante de um filme do que diante de uma fotografia, como o notaram tantos autores e como qualquer um pode verificar na experiência cotidiana". (METZ, 1968, p.19)

Outro conceito a ser considerado vem do grego: enargeia, que pode ser entendido como a vivacidade de algo diante dos olhos, a sensação de que está realmente a acontecer, ainda que sejam ficções ou projeções. Tudo isso tem a ver com índices de realidade que podem nos conduzir ao processo interpretativo conhecido como suspensão da descrença na Literatura. Há uma reflexão interessante sobre o assunto no artigo From Enargeia to Immersion - The Ancient Roots of a Modern Concept (Da enargeia à imersão: as raízes antigas de um conceito moderno), de Rutger J. Allan Free e Irene J. F. de Jong, da Universidade de Amsterdam, junto com Casper C. de Jonge, da Universidade de Leiden.


O avanço tecnológico sofisticou as técnicas e métodos para a produção audiovisual, ao ponto de tornar a comunicação imersiva um dos aspectos mais fortes das mídias multimodais. A indústria cinematográfica gerou tecnologia capaz de criar todo um universo com imagens e sons altamente convincentes. E a popularização do acesso a mecanismos desse aparato gerou recursos e aplicativos que podem ser usados para diversão, solução, mas também para confusão.

Deepfakes

O termo deepfake resulta da mistura das expressões deep learning, que se refere a processos de rastreamento de dados, análise e reconhecimento de padrões em áudio e vídeo por algoritmos; e fake, que significa falso em inglês. Nesse tipo de conteúdo, é possível distorcer rostos e falas, alterando o discurso e as ações das pessoas que aparecem na tela. De acordo com Johnny Botha e Heloise Pieterse, do Conselho para pesquisa Científica e Industrial da África do Sul, esse recurso de substituição de expressões faciais ameaça consideravelmente a segurança da informação no século XXI, porque a tecnologia está tão avançada que pode se tornar cada vez mais difícil identificar a veracidade de um conteúdo em vídeo.

Eles mencionam algumas técnicas para se detectar um deepfake, abaixo uma síntese em tradução livre:

  • A falta perceptível de piscadas durante a fala;

  • A inconsistência dos ângulos da cabeça e do rosto, por exemplo, quando a cabeça está virada para uma direção mas a face não parece estar bem"encaixada";

  • Impressão de imagens duplicadas (sobrancelhas, queixo, contornos do rosto);

  • Falta de foco e mudanças de tonalidade da pele nos contornos do rosto;

  • Imagem saltada, desfocada, ou a inserção de obstáculos na frente do rosto, dificultando a visualização da fala.

As orientações do pesquisador do MIT Media Lab, Matt Groh, são as seguintes, também em tradução livre a partir de conteúdo elaborado por Meredith Somers:

  • Rosto - a pessoa pisca demais ou de menos? As sobrancelhas e os cabelos parecem deslocados? A pele parece estranha, enrugada ou retocada demais?

  • Som - a voz parece não ser daquela pessoa?

  • Iluminação - Como são os reflexos da imagem? Segundo o especialista, os deepfakes não conseguem reproduzir bem a iluminação natural da imagem original falseada.

Quando o falseamento da realidade se equipara à impressão do real, é preciso redobrar a cautela.


Você pode encontrar mais informações na plataforma Detect Fakes, do MIT Media Lab.


Leia mais também nesta reportagem de Luiza Pollo para o Uol TAB.


Deepfakes farão parte do conteúdo do nosso curso de vídeos jornalísticos para internet na semana que vem, de 5 a 9 de outubro, vem mergulhar com a gente!

*Professora do curso:

Video Upload: atualização teórica e prática em jornalismo digital. Mergulho on-line de 5 a 9 de outubro (vagas limitadas, faça já sua pré-inscrição).

Criadora do podcast Trem da Maldade, sobre vilões de filmes e séries.

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