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A grande caça de Flaherty ou com o que sonha Nanook?

Sobre um grande clássico da história do cinema documentário


Por Dani Gonçalves*, Documentarista, Jornalista, Mestre em Cinéma anthropologique et documentaire


A terra é árida, cheia de pedregulhos, varrida pelo vento e situada no topo do mundo. As pessoas que ali vivem são descritas como “destemidas, adoráveis e despreocupadas”. Uma cartela de texto nos fala de um bravo caçador, célebre entre os seus, apelidado de “Urso”. Vemos um plano em close do rosto de um homem inuíte, que encara a câmera. O filme é Nanook, O Esquimó (Nanook of the north), de 1922, do diretor norte-americano Robert Flaherty.

Eduardo Escorel, no texto “A Direção do Olhar”, na coletânea "O cinema do real", organizada por Maria Dora Mourão e Amir Labaki (2005), apresenta uma distinção entre documentário e ficção a partir do direcionamento do olhar. Ou seja, enquanto o documentário resultaria de uma disposição de olhar para fora, a criação ficcional teria origem em um olhar direcionado para dentro, mesmo quando precedida de uma observação externa.


Segundo essa lógica, Nanook poderia ser visto como uma obra ficcional, uma vez que é bastante conhecido o fato de Flaherty ter reconstituído, no filme, um passado que já estava em vias de desaparecer quando ele conheceu os inuítes. Ou seja, o olhar de dentro interessado em preservar na película um modo de vida ameaçado pelo contato com a civilização, precedido de um olhar para fora formado a partir da convivência empreendida com esse povo desde 1910.


Porém, é aceitável não enxergar Nanook como um documentário, posto que a palavra mesmo provavelmente nem existia naquela época. Seu primeiro registro foi encontrado por volta de 1926, em um texto de John Grierson para caracterizar o trabalho de Flaherty. Isso demonstra que o que Flaherty estava fazendo com Nanook era completamente diferente de tudo que fora visto até o momento. Não é à toa que o filme é considerado o primeiro filme documentário, o primeiro filme etnográfico, e até mesmo o primeiro filme publicitário. A título de curiosidade, Flaherty contava com o patrocínio da sociedade parisiense Révillon Frères, fábrica de peles de animais. O valor de cerca de 3.000 dólares servia para alimentar os inuítes, impedidos de caçar e pescar por estarem envolvidos com a filmagem.


Os protagonistas de Nanook agem para a câmera, de modo que os detalhes possam ser captados da melhor forma possível. Nesse sentido, a encenação é predominantemente frontal, o que indica que os inuítes sabiam ser filmados, ou pelo menos como se apresentar diante de uma câmera. Aqui vale lembrar que Flaherty levou instrumentos para imprimir e projetar os resultados das filmagens, de modo que os personagens pudessem entender o que estava sendo feito, e participar junto com o cineasta da criação da cena. Assim, podemos dizer que Flaherty é um precursor do feedback, tão defendido e praticado por Jean Rouch anos mais tarde. Para o cineasta-antropólogo, o filme era perfeito para democratizar os resultados de pesquisa entre comunidades de cultura oral. Daí, pode-se inferir a importância de uma espécie de aprovação, validação desses resultados, por parte daqueles que foram filmados.


Flaherty conta que, ao se preparar para partir em 1920, Nanook, ou melhor Allakariallak (verdadeiro nome do protagonista), não parava de rondar sua cabana com novas ideias de filmes para eles fazerem juntos. O homem inuíte não entendia por que o homem norte-americano precisava partir para sua “big aggie”, ou seja, sua grande-caçada. Esta se transformou em um filme sobre os modos de vida de uma família inuíte nas regiões árticas do Canadá. Um filme que termina com um olhar para dentro, seja no plano em close do rosto de Nanook, que dorme tranquilamente no iglu em meio a uma tempestade de neve; seja simplesmente o rosto de Allakariallak, que sonha, talvez com as caças ou os filmes do futuro?

No dia 13 de junho, participei de uma live sobre esse documentário clássico para o Museu da Imagem e do Som, assista ao filme e depois confira outros detalhes sobre ele:

Faixa bônus:

*Professora do curso Observar e descrever com audiovisual: o documentário no contexto da produção de conteúdo


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